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Pânico moral

16 de junho de 2009
Foto do jogo Wolf3D com o jogador enfrentando o antagonista (Hitler).

Foto do jogo Wolf3D com o jogador enfrentando o antagonista (Hitler).

Uma terça feira em abril de 1999 mudou a forma como o mundo enxergava os jogos eletronicos, este evento foi o que transformou críticas

infundadas mas ignoradas em pânico moral.

Desde os primordios dos jogos eletrônicos, existiu gente contra por algum motivo ou outro, o mais comun sendo que jogar aparentemente é perder tempo, não fazer nada, mas em 20 de abril de 1999, ocorreu o massacre da escola de Columbine, um evento infeliz, provavelmente causado por causa da depressão e abuso em relação aos assassinos, mas que rapidamente se tornou em uma caça as bruxas as criações dos dois Johns, Wolfenstein 3D e DOOM, criadors por John Carmack (programador) e John Romero (projetista) rapidamente ficaram mais famosos, virou moda na contracultura, e critica-los e todos os seus descendentes é moda na cultura desde então. Cada geração de jogos de tiro, desde DOOM, até FEAR 2, é acusada de causar violência na sociedade real, apesar das taxas de crime descendentes, e o pânico se espalha através de outros tipos de jogos, até mesmo os não eletrônicos, como paintball e RPG de mesa.

Pânico moral é algo muito antigo, existe na sociedade desde que existe problemas grandes para que a culpa destes sejam colocadas em outros locais, ja existiu pânico (e ainda existe em alguns países) em relação a bruxaria, que causaria os mais variados efeitos (inclusive despararecimento de pênis), ja existiu medo de judeus, existe agora medo de árabes, e durante toda a idade média saber ler era algo muito suspeito se você não fosse padre (ou monge, bispo, e afins…).

Mas o pânico moral que atinge nossa indústria é o pânico dirigido a mídia, este existe desde a existência dos livros, mas recentemente, com a invenção de cada vez mais novas mídias, este tem se tornando cada vez mais comum. O caso mais celebre e parecido com o problema atual é o caso dos quadrinhos, quando em 1955 foi publicado o livro “Sedução dos Inocentes”, que críticava os quadrinhos, dizendo que estes causavam delinquencia juvenil, baseado na observação de que delinquentes liam quadrinhos (é a mesma coisa que dizer que toda pessoa que respira é assassino, porque todos os assassinos respiram…), fora outros absurdos (como a história de que o Batman era gay e pedófilo, pois era namorado de Robin…). O resultado foi um pânico generalizado, um policial chegou a dizer que os quadrinhos espalhavam histórias comunistas, mães obrigavam os filhos a queimar os quadrinhos e não comprar outros, a era dourada dos quadrinhos acabou com uma auto-censura muito rígida chamada “Comic Code Authority” (autoridade do código dos quadrinhos), que foi refletida em vários países (no Brasil os quadrinhos tinham um selo “Aprovado pelo código de ética”.

Depois do incidente em columbine, começou um mesmo pânico contra jogos, não só eletrônicos (em vários locais RPGs ficaram conhecidos como material satanista, no Brasil inclusive, onde um delegado acusou uma pessoa de assassinato por causa da posse de um livro de D&D que ele dizia ser um manual satânico), mas foi Mortal Kombat que causou antes mesmo de columbine o mesmo efeito que o livro “Sedução dos Inocentes”, a criação de um orgão de auto-censura, o ESRB. O problema agora é que mais e mais governos depois do massacre começaram a tentar impor leis de censura, para obrigar lojas a usar o ESRB ou simplesmente banir a venda de alguns jogos.

Infelizmente, a onda atingiu também o Brasil, no mesmo ano de columbine, um pouco depois (em novembro) um rapaz entrou no cinema do Shopping Morumbi em São Paulo e disparou com uma sub-metralhadora, durante o julgamento a defesa ficou tentando provar que o rapaz não poderia ser condenado porque tinha problemas mentais, e um dos argumentos usados foi que ele jogou Duke Nukem 3D e não sabia diferenciar realidade de ficção e tentou reproduzir a primeira fase do jogo (onde ocorre um tiroteio em um cinema, mas contra alienígenas, e usando uma pistola), felizmente para a sociedade o argumento não deu certo no caso, e o rapaz foi preso, mas infelizmente para a sociedade, outros juizes acreditaram no argumento, e o resultado foi o banimento do jogo Duke Nukem 3D.

Infelizmente, essa censura (pois proibir qualquer mídia é ferir a constituição no quesito liberdade de expressão, portanto censura) abriu precedente na justiça para o banimento do Counter-Strike e do Everquest, e estes por si só abrem precedente para o banimento de qualquer outro jogo que o governo quiser banir por qualquer motivo.

Imagem do quarto jogo da controversa série GTA.

Imagem do quarto jogo da controversa série GTA.

Infelizmente o pânico moral vai demorar a se acabar, enquanto existir uma geração que não entendo os jogos eletrônicos, essa geração vai ignorar estudos reais sobre o assunto, e vai continuar fazendo suas críticas infundadas. A única coisa que podemos fazer é seguir o caminho da lei, e lutar contra a censura inconstitucional que existe em nosso país e em outros, e mostrar para o máximo numero de pessoas o possivel todas as coisas boas que os jogos trazem, e torcer para que no futuro, os jogos eletrônicos sejam apenas um exemplo de pânico moral, como os quadrinhos são hoje, e não fonte real de preconceito.

Um dia as pessoas vão entender que pessoas matam, não são armas, ou quaisquer outras ferramentas, pessoas não precisam de nada disso para matar, nem de incentivo da mídia, elas simplesmente o fazem.

Para mais informações, leia todos os links presente no artigo, a lista dos jogos proibidos no Brasil e no mundo, e para os leitores que sabem inglês, a página do livro Grand Theft Chilhood (note o design estilo quadrinhos… não é coêncidencia)

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9 Comentários leave one →
  1. Murilo Dias permalink
    31 de julho de 2009 4:02 pm

    Eaeh Brother, primeiro parabéns pelos teus trampos.

    Eu ví seu post no “www.programadoresdejogos.com”, onde é pedido por participantes para o GameJam. Bom eu não consegui teu e-mail, então respondo por aqui, conte comigo. Responde pra mim via e-mail pra eu mostrar meus trampos, no caso eu entro com a parte artística, enfim, conversaremos mais.

    Abraços, te espero

  2. 19 de outubro de 2009 2:40 am

    Olá,

    Seu post é verdadeiro, porém mostra apenas um lado da questão. Existem dois erros comuns quando se trata dessa questão. Um é dizer que jogos simplesmente provocam violência, outro é esquecer que jogos, como qualquer outra mercadoria cultural, também influenciam sim as pessoas, para o bem ou para o mal, e o problema da violência física é apenas o mais alarmante, mas não é o principal efeito dos games.

    Assim como sociólogos não recebem preparação suficiente para criar um jogo (algo que considero essencial para entender o que é um jogo), criadores de jogos também não recebem preparação para falar de jogos enquanto parte da indústria cultural. São áreas diferentes, e precisamos de alguém igualmente qualificado em ambas para dar um parecer realmente fundamentado. Infelizmente isso é raro, e quando alguém dá pitaco numa área em que não tem formação, o resultado é uma argumentação inócua.

    De um lado é verdade que existe pânico moral, por outro não se pode ignorar que alguns jogos, assim como alguns filmes e alguns livros, veiculam conteúdo inadequado para certas faixas etárias. O discurso da liberdade de expressão não pode ser usado como desculpa para ignorar regulamentações que existem e devem existir para qualquer tipo de produto cultural.

    Além disso, parece que ambos os lados evitam entrar numa discussão mais profunda, sobre a influência dos games para além da violência. Jogos possuem conteúdo cultural, isso é inegável, portanto não podemos ser ingênuos a ponto de achar que não existem conteúdos culturais ofensivos e maléficos, ou que estes não caibam na mídia interativa.

    O debate não acaba no fato de que o game não provoca aumento dos casos de violência, pois taxa de crimes é diferente de banalização da violência. Outras formas de violência, como bullying, tem aumentado. Os casos extremos, considerados “exceções”, como o de Columbine, também cresceram. Pode não ser culpa dos games, mas os games estão inseridos nessa sociedade, são também um veículo para a cultura que gera tais coisas.

    Por isso acho irresponsável dizer que não passa de “pânico moral”, quando há problemas reais e sérios na indústria dos jogos, pois esta não está isenta de ser afetada pela ideologia do status-quo. O criador de jogos não pode se isentar daquilo que nós cobramos, por exemplo, dos diretores de filmes ou de escritores. Quem em plena sanidade mental aceitaria, por exemplo, um livro infantil que incentiva a criança se imaginar matando dezenas de pessoas, realisticamente, a sangue frio? Com que propósito um autor escreveria um livro desses? Bastaria dizer que o livro é divertido? Que ele mantém a criança lendo por horas sem parar, imersa naquela narrativa? Eu creio que não. Mas a indústria de jogos parece usar este argumento para se justificar: é divertido, não mata ninguém de verdade, portanto é inofensivo.

    Os criadores de jogos parecem estar querendo se isentar de sua responsabilidade moral enquanto propagadores de idéias. Parecem pensar que se eles colocam algum conteúdo educativo, como informações históricas sobre a II Guerra mundial, então a jogabilidade se justifica. Não se questiona porque a demanda por jogos que simulam assassinatos realisticamente está aumentado. Fazem parecer que o ato de matar oponentes é simplesmente um elemento característico dos jogos, e não uma ESCOLHA de criação. Assim, ignora-se a questão de “Por que gostamos tanto de jogos violentos?”, e outra por trás dessa: “Por que as pessoas escolhem fazer jogos cuja lógica é matar o inimigo?”. Ao pensar nessas perguntas, entraremos num universo muito mais amplo e profundo, que a maioria das pessoas tem preguiça de entrar, e tenta fugir dizendo que o assunto é “filosófico demais” ou pouco relevante.

  3. originalspeeder permalink*
    19 de outubro de 2009 3:56 am

    Oi!

    Na verdade, nós (Criadores de Jogos) majoriatariamente (ou seja, não todos) concordamos com você.
    Por isso mesmo criamos o ESRB, o PEGI e algumas outras intituições de auto-regulamentação, não criamos jogos para crianças matarem, GTA NÃO É um jogo para crianças, o mesmo se aplica a Doom e outros jogos, o que eu vim reclamar neste artigo não é o fato de o GTA não poder ser vendido a crianças (não é para poder mesmo), o que reclamamos é quando governos tomam atitudes como o governo da Alemanha que quer proibir jogos violentos totalmente, como se eles fossem a única culpa dos males da sociede, ou da Austrália, que não tem um nível de classificação acima de 15 anos com o argumento de que jogos de 18 anos não deveriam existir, o que tem o resultado infeliz de que jogos que não deveriam ser para 15 anos, são manobrados para caber artificialmente nas exigências, resultando em jogos para adultos sendo vendidos como jogos para adolescentes por causa de uma politica que prefere acreditar no pânico ao invés de estudar o assunto a fundo.
    Sabemos sim que o assunto é complexo, é difícil fazer um estudo de causa, geralmente elas apenas atingem a correlação (que não é causa), mas infelizmente está crescendo o número de estudos absurdos e desconexos (como estudos que usam questionários para viciados em drogas para ver se pessoas são viciadas em jogos).
    Por isso que existe sim estudiosos sobre a relação de jogos e cultura, desde o http://www.gamecultura.com.br/ , até orgãos especialisados em definir faxas etárias, como o ESRB e o PEGI, e grupos de representação da categoria que frequentemente se envolvem nesses estudos e defendem o nosso (e geralmente o da população também) ponto de vista nos tribunais de inconstitucionalidade quando alguém toma alguma atitude absurda (como o banimento do Counter-Strike usando como argumento que é nocivo a crianças, sendo que a sua venda ja era proibida a menores)., como o ECA, ESA, Abragames…

    Sim, sabemos que jogos influenciam a cultura e são influenciados pela mesma, e por isso mesmo sabemos que isso deve ser discutido, e não simplesmente banido e jogos queimados como fizeram com os quadrinhos em 1950, e igual a Alemanha, Australia, Califórnia e Brasil estão fazendo, banindo jogos arbitrariamente, muitas vezes com argumentos ilógicos, enquanto hipocritamente permitem novelas na televisão com sexo quase explícito mesmo sabendo que crianças assistem livremente.

  4. 19 de outubro de 2009 4:07 am

    Eu sou colaborador do Gamecultura, crio jogos e estou tentando um mestrado em sociologia sobre games. Eu concordo com tudo que você falou, mas tem uma questão que não você não tocou: Por que nós gostamos de jogos como GTA ou DOOM? Mesmo que se diga que são para adultos, crianças adoram. Isso é uma questão importante.

    Você provavelmente consideraria radical se eu dissesse que bebidas alcoólicas ou cigarro não deveriam ser vendidos para adultos também. Isso é uma questão de direito. A questão do dano que a bebida e o cigarro causam à sociedade e aos indivíduos é outra coisa.

    Eu só pretendi apontar que o fato de que há erros do lado de “lá”, não quer dizer que estamos isentos do lado de “cá”.

    Valeu pela resposta e pelo artigo.

  5. originalspeeder permalink*
    19 de outubro de 2009 5:27 am

    Realmente, é algo que temos que estudar mais…

    Na minha opinião pessoal, a atração por violência é algo natural do ser humano, o motivo mais comum para pais serem chamados em creches é violência entre as crianças, essas ainda sem muita influência da sociedade agem ainda muito por instinto, e podemos ver freqüentemente violência neste meio, desde beliscões e cabelos arrancados até casos realmente violentos como mordidas e ataques armados.
    Eu lembro que uma das primeiras coisas que eu vi quando entrei na primeira série foi uma criança mais nova (de 4 anos) roubando o lanche de outra armada com um compasso (também roubado).

    Creio eu que os jogos mais refletem nós mesmos mais do que nós refletimos os jogos, não somos violentos por causa dos jogos, os jogos são violentos por causa de nós.

  6. 19 de outubro de 2009 5:50 am

    “não somos violentos por causa dos jogos, os jogos são violentos por causa de nós.”

    Exato. Essa é exatamente a minha conclusão. Mas é aí que a questão fica interessante. Pois os jogos também podem uma arma contra a violência. Mas isso depende de que os criadores de jogos se aprofundem mais no estudo da violência e da sociedade.

    Embora isso talvez seja outra questão, devo comentar que de acordo com a antropologia, esta idéia que você expressou sobre a violência ser simplesmente natural por já se expressar nas crianças é falsa, por dois motivos: A influência do ambiente em que nascemos já muda nossos hábitos desde a primeira infância. Estudos revelam que bebês aborígenes, por exemplo, choram menos, são menos agitados e menos afobados para mamar. Desde a gestação, o excesso de estímulos auditivos, assim como o estresse da mãe, já influencia nosso desenvolvimento cognitivo e fisiológico, nos deixando em estado de alerta, ou seja, somos estressados desde berço. A sociedade já nos afeta desde antes de nascermos.

    A mudança de ambiente afeta até mesmo animais não-humanos. Animais domesticados têm uma tendência maior à agressividade entre si do que suas contra-partes selvagens. Por isso mesmo o comportamento agressivo de crianças pode ser explicado como influência da cultura.

    O que me chama a atenção é que o jogo tem uma potencialidade maior do que as outras mídias para criar identificação com o personagem e imersão na atividade de violência. Uma coisa é assistir um filme de guerra, outra completamente diferente é você jogar um jogo que te dá a sensação de estar na guerra, não apenas a assistindo, mas participando. Exatamente por isso, criadores de jogos estão numa posição ainda mais delicada do que qualquer outro criador de produtos culturais.

  7. originalspeeder permalink*
    26 de outubro de 2009 12:22 am

    Muito interessante isso.
    Eu realmente nunca pensei no ponto de vista hormonal, tem lógica, apesar de que eu ainda acredito que mesmo alguém “não influenciado” ainda assim apresentaria agressividade (por ser baixa, mas alguma ainda existiria).

    Eu não creio que guerra existe por invenção da sociedade, eu já vi abelhas em guerra até, onde duas colméias montam exércitos organizados e tentam invadir o território inimigo.

    Mas isso realmente não é desculpa para fazer o que quisermos sem pensar.

    Saiu recentemente um artigo parecido com o meu que parece que chamou atenção. http://www.gamasutra.com/view/feature/4169/kill_polygon_kill_violence_.php

  8. deoene permalink
    24 de janeiro de 2011 5:42 pm

    so não irá existir jogos de 18 anos quando não existir pessoas de 18 ano!

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  1. Ministério da Censura « O Criador de Jogos

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